A boa e a má notícia para o Brasil em 2018

Zeina Latif (economista-chefe da XP Investimentos), Gustavo Loyola (ex-presidente do BC e sócio-diretor da Tendências Consultoria), Luiz Fernando Figueiredo (ex-diretor do BC e sócio-fundador da Mauá Investimentos) e Carlos Kawall (ex-secretário do Tesouro e economista-chefe do Banco Safra) falaram para o guia Onde Investir 2018, da revista InfoMoney. 

Se os economistas têm uma boa notícia para o Brasil em 2018 é que a economia deve crescer - entre 2,5% e 3% -, a má notícia é que a eleição nunca foi tão importante na história recente do País. Isso porque, sem a reforma da Previdência, que eles veem baixíssimas chances de ser aprovada - entre 20% a 30% - na volta do Congresso, em fevereiro, os problemas serão empurrados para 2019, quando essa não será mais uma uma opção, mas uma obrigação, ou o País vai caminhar novamente para o fundo do poço. 

Nesse percurso, as incertezas têm um destino certo: o mercado financeiro, que deve sofrer toda a oscilação do processo eleitoral. “A economia provavelmente vai sentir pouco, mas os ativos brasileiros vão flutuar dependendo da probabilidade de cada candidato ganhar”, disse Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor do Banco Central entre 1999 e 2003 e sócio-fundador da Mauá Investimentos, gestora com R$ 4,8 bilhões em ativos sob gestão, ao guia Onde Investir 2018 - InfoMoney. Por conta disso, ele prefere esperar para ver como o processo vai se desenvolver antes de ter uma exposição mais firme em Brasil. 

Isso porque a economia pode dar sinais alívio, mas, sem a reforma (cuja aprovação deve ficar para 2019), o risco da eleição cresce ainda mais. “Tem muita coisa em jogo. Essa eleição será uma das mais importantes que o Brasil já teve no período pós-ditadura. Tem um risco populista que não se via há muito tempo, o que é muito ruim”, avalia Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central em duas oportunidades (de 1992 a 1993 e de 1995 a 1997) e sócio-diretor da Tendências Consultoria. 

Para ele, a reforma da Previdência não ter sido aprovada ano passado foi uma decepção. Sem ela, não há plano B para o Brasil. Ou o País vai acumular mais dívidas, que já está chegando em um ponto perigoso, ou vai ter que aumentar impostos. “Diria que estou realista. Já estive mais otimista. Achei que poderíamos aprovar a reforma ano passado. Agora, estou um pouco mais pessimista. Acho que estamos acumulando problemas para 2019”. 

As incertezas recaem sobre as medidas duras que o novo governo pode adotar logo de pronto para resolver o problema fiscal do País. “O próximo presidente que chega não vai ter lua de mel. Ou ele mostra logo a que veio ou complicou. Aí sim, a agência de rating não vai dar uma segunda chance, não vai dar margem para o governo. Ou ele de cara já fala: ‘olha, minha proposta é essa, estou mandando para o Congresso dia 2 de janeiro’. Estou exagerando um pouco, mas tem que mandar logo. Não vai ter aquela lua de mel de alguns meses não”, acredita a economista-chefe da XP Investimentos, Zeina Latif. 

Por essa situação, a resultado da eleição será monitorado com extrema atenção pelo mercado. “A depender do resultado, podemos retornar em uma situação ainda pior: a eleição de um presidente contra as reformas pode jogar o Brasil novamente para o fundo do poço, inclusive para algo muito pior do que vimos na última recessão", avalia Carlos Kawall, economista-chefe do Banco Safra e ex-secretário do Tesouro.
Para ele, se o Brasil não levar essa eleição a sério e eleger um populista, o País não irá sobreviver. "Nós estamos no limite no campo das contas públicas e do descrédito internacional, já que estamos discutindo se vamos sofrer um novo rebaixamento. Não podemos insistir nos mesmos erros”. 

Nesse cenário, o avanço de Lula nas pesquisas de intenção de voto representa um risco. Mas muito pior ele como candidato do que como possível presidente. "O Lula candidato é de dar medo. Já ele como presidente é de dar muito menos medo", avalia Figueiredo, um dos responsáveis pelo processo de transição político-econômico entre a gestão FHC e Lula.

"Uma coisa que aprendemos quando trabalhamos no governo é que a agenda de crise você não consegue controlar, só se reage a ela. Então, ele precisaria fazer um movimento para que o ambiente seja mais estável. O problema é que o candidato é mais radical, mesmo que o presidente não o seja. Nesse cenário, ate as pessoas acreditarem que ele será o 'Lula paz e amor' de 2002 vai demorar muito e vai ter muita volatilidade até que ele mostre que não será a pessoa tão nociva quanto parece que seria". 

Da mesma forma, Kawall diz que, caso eleito, não acredita que Lula realizará um tipo de governo intervencionista, como o que se teve na era Dilma. "Ele buscaria uma maior aproximação junto ao empresariado e ao mercado. A grande diferença será a realidade econômica, bem diferente de 2003, quando tínhamos as ‘contas em dia’. Esse choque de realidade será o grande desafio pois, inevitavelmente, será obrigado a discutir o andamento da agenda de reformas para resolver o quadro fiscal brasileiro, agenda que não faz parte dos planos políticos do PT”. 

Por conta disso, Figueiredo vê o dia 24 de janeiro (quando está marcado o julgamento do ex-presidente no Tribunal Regional Federal da 4ª Região) como um "divisor de águas" para o mercado. A grande novidade, diz, será se o julgamento for unânime entre os três desembargadores, o que o tornaria o ex-presidente quase que certamente inelegível. "Se isso acontecer, muda todo o processo eleitoral, com uma chance muito grande de alguém de centro vencer e endereçar logo a questão da Previdência. Nesse cenário, os ativos brasileiros performariam muito bem". 

Chance de rebaixamento ultrapassa os 50%
Com a aprovação da reforma devendo ficar somente para 2019, Kawall acredita que, pelo quadro atual, a chance de rebaixamento pela S&P (Standard & Poor's) ultrapassa os 50%. Já no caso das outras duas agências [Fitch Ratings e Moody´s], ele não vê uma indicação tão clara como da S&P e apostaria que elas provavelmente aguardariam o desenvolvimento do quadro político, como o andamento da economia, para tomar uma decisão. 

"Se não sair a reforma, esse é o cenário provável. Não vejo como não ser rebaixado. Se elas não rebaixarem, o mercado vai. O discurso vai piorar. Elas estão segurando um pouco porque melhorou a perspectiva de crescimento do País. No curto prazo, o déficit não está aumentando e elas têm expectativa de reversão. Mas, se essas expectativas começarem a ficar menos prováveis, é natural que isso impacte a avaliação que elas têm sobre o País", aponta Loyola.
Mas o tom mais duro das agências não é visto como um mau sinal. "É bom mesmo que elevem, porque cada dia que a gente adia a reforma da Previdência, mais arriscado vai ficando o ambiente no Brasil. A gente já está atrasado, era para ter feito isso 20 anos atrás. Qualquer país arrumado, aliás, a grande maioria dos países, tem idade mínima para aposentar, o Brasil é ponto total fora da curva. Nossos vizinhos da América Latina fizeram reforma da Previdência na década de 90. A gente está muito atrasado. Então, a cada dia que você atrasa mais, você vai deixando o risco fiscal maior, portanto riscos macroeconômicos maiores", avalia Zeina. 

Além da eleição, um outro risco não deve ser negligenciado

Para Figueiredo, se a perspectiva do processo eleitoral for tranquila, sem possibilidade de retrocesso, os ativos brasileiros tendem a performar muito bem. O único risco que não deve ser negligenciado é o início de um processo de normalização das taxas de juros no mundo. "Esses processos nunca são totalmente tranquilos, calmos e graduais. Eles têm solavancos e podem acontecer acidentes e você passa a ter um mundo não tão benigno para países emergentes, como o Brasil, como temos visto nos últimos anos. Esse é um risco que temos que considerar". 

Citando os Estados Unidos, Loyola diz que, com a economia por lá mostrado uma queda muito forte no desemprego, o Federal Reserve deve ser "obrigado" a dar sequência na alta de juros. Um cenário ainda mais provável em função da reforma tributária, que foi aprovada pelo Congresso americano e sancionada por Donald Trump, que tem um viés estimulante na economia. "Haverá uma mudança no mix da política econômica dos EUA. O resultado disso, evidentemente, são os juros mais altos por lá e dólar apreciado e, portanto, é um cenário menos favorável para os emergentes", avalia. 

Para ele, as moedas emergentes devem ser pressionadas em 2018 e o real não escaparia desse quadro, tendo em vista ainda que ele pode estar pressionado pela questão doméstica [risco eleitoral]. "O que segura um pouco a amplitude dessa volatilidade é que o País tem uma boa posição de balança de pagamentos, o fato de o governo ser credor em moeda estrangeira, isso amortece um pouco esses impactos, mas eles serão sentidos, sem dúvida". 

Fonte: revista InfoMoney

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