Planos de saúde gastam 55% mais que governo federal e atendem apenas 25% da população

O sistema de saúde suplementar do país, que inclui planos e seguros-saúde, está realizando a façanha de gastar uma montanha de dinheiro para produzir uma rede de insatisfeitos. Ano passado, o atendimento aos 25% da população que contam com a cobertura dos convênios - cerca de 50 milhões de pessoas - consumiu R$ 143,9 bilhões em pagamento de mensalidades e receitas próprias. É 55,4% mais que os R$ 92,6 bilhões destinados pelo governo federal ao atendimento de 100% da população, segundo dados da ANS e do Ministério da Saúde. 

A despesa total do SUS, que inclui gastos dos estados e municípios, foi de RS 359 bilhões. Ainda assim, os segurados dos planos estão entre os consumidores que mais reclamam, os médicos, laboratórios e hospitais esperneiam por receber pouco pelos serviços, e as empresas argumentam que estão com o caixa estrangulado pela alta de custos. Das 1.390 operadoras em atividade, 56 estão sob direção fiscal da ANS por causa do desequilíbrio econômico-financeiro. 

"É um volume muito grande de recursos e não resolve o problema, porque nem a saúde desse grupo é boa. Caso contrário, não teríamos tantos hipertensos e pacientes de doenças crônicas", diz Ligia Bahia, pesquisadora de saúde da UFRJ. 




Planos lideram ranking de insatisfação



No Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), os planos e seguros lideram o ranking de insatisfação, com 20% de todas as queixas de 2014. Reajustes abusivos e negativas de atendimento são os principais motivos. A ANS recebe cerca de 20 mil reclamações por mês, e na Justiça tramitam cerca de 400 mil processos sobre o tema. São casos como o de Angela Barreiros, de 61 anos, que paga mensalidade de R$ 2 mil pelo plano da Unimed-Rio. No começo do mês, precisou marcar uma ultrassonografia de abdômen e, após ligar para várias clínicas, conseguiu vaga para 16 de fevereiro do ano que vem. "Isso é todo ano. Fico extremamente chateada. Não devia ter de ficar implorando por um exame tão simples", diz ela. 

A Unimed-Rio informou que o prazo legal "para marcação deste tipo de exame é de dez dias úteis, logo, o agendamento foi feito dentro do prazo, e a cliente foi atendida". Na outra ponta, o superintendente executivo do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS), Luiz Augusto Carneiro, argumenta que a inflação médico-hospitalar variou entre 15% e 18% nos últimos quatro anos, enquanto a inflação oficial ficou entre 5,84% e 6,5%. Já a Associação Médica Brasileira reclama da resistência das empresas a melhorar os honorários dos profissionais que, segundo a entidade, "chegam a ser vergonhosos". 

"Todos têm sua razão. As margens das operadoras de saúde estão muito próximas de zero, os beneficiários têm dificuldade para suportar os custos, e os médicos acreditam que merecem mais do que recebem, apesar de receberem reajustes de honorários acima da inflação", admite Pedro Ramos, diretor da Abramge, que reúne as empresas de planos de saúde. 

Encarregada de por ordem no mercado, a ANS atribui o imbróglio ao envelhecimento da população e às novas tecnologias. "É um conjunto. Longevidade e complexidade têm custo cumulativo. Temos de compartilhar a gestão entre todos para que o médico e o prestador sejam melhor remunerados, dentro de uma situação econômica que a operadora possa realizar e o consumidor, pagar", diz José Carlos Abrahão, presidente da ANS. 

Martha de Oliveira, diretora de Desenvolvimento Setorial da ANS, acrescenta que, em saúde, bom resultado depende de variáveis como gestão, organização e qualidade do serviço. "Não é apenas o gasto que determina o bom resultado", diz.

Ligia discorda da tese de fragilidade econômica das empresas e diz que é preciso repensar o modelo de saúde. Defende sistema semelhante ao modelo inglês, no qual os clientes têm menos opções, mas são sempre atendidos pelos mesmos médicos. "Precisamos é acabar com o sistema 'ao, ao, ao'. O paciente vai ao clínico, que manda ao cardiologista, que manda ao neurologista, que manda a outro especialista, e ninguém resolve. Mas as empresas não querem mudar porque tem gente ganhando muito dinheiro, então, está ótimo assim".

Fonte: O Globo.
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